Tecnologia implementada na Comunidade São Raimundo, onde o projeto piloto atendeu 30 famílias. Foto: Fabíola Abess

Garantir o acesso à água potável e ao saneamento básico segue sendo um dos maiores desafios enfrentados pelas populações ribeirinhas e extrativistas da Amazônia. A vastidão territorial, a pouca ou nenhuma infraestrutura e as dificuldades logísticas tornam essa realidade ainda mais complexa, especialmente em regiões isoladas como o Médio Juruá, no sudoeste do Amazonas.

Nesse contexto, a atuação de organizações comunitárias tem sido fundamental para transformar a realidade local. Com mais de 30 anos de história, a Associação de Produtores Rurais de Carauari (ASPROC) se consolida como protagonista na defesa dos direitos das famílias ribeirinhas e no acesso a políticas públicas de qualidade.

A trajetória político-social da ASPROC impulsionou conquistas importantes, entre elas o acesso e a implementação de Tecnologias Sociais de Água e Saneamento nas comunidades. Um marco nessa história foi a participação da associação no Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social, em 2013, com o Projeto Sanear Amazônia — implementado na Comunidade São Raimundo, projeto piloto, e que contou com a participação direta de 30 famílias agroextrativistas. A iniciativa conquistou o primeiro lugar na categoria “Comunidades Tradicionais, Agricultores Familiares e Assentados da Reforma Agrária”.

O sucesso do projeto contribuiu para que o Sanear Amazônia se tornasse política pública nacional de saneamento. Graças à parceria com o Memorial Chico Mendes e o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), o programa recebeu um investimento inicial de R$ 35 milhões para ampliar o acesso a tecnologias sociais de captação, tratamento e uso da água da chuva em comunidades do Norte do Brasil.

Atualmente, o Sanear Amazônia se destaca como o maior programa de acesso à água para comunidades extrativistas da Amazônia. A ASPROC é uma das principais executoras do programa do Amazonas, atuando diretamente na formação das famílias, gestão hídrica, planejamento técnico e execução das obras e sistemas.

Apesar dos desafios logísticos, como as grandes distâncias, a dificuldade de transporte e o custo elevado de insumos, a ASPROC tem conseguido levar soluções efetivas, fortalecendo a autonomia das comunidades. Essa atuação reafirma o legado socioambiental de Chico Mendes, mantido pelo Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), que defendia a importância da união entre conservação ambiental e desenvolvimento humano nas reservas extrativistas.

O impacto positivo da tecnologia social de água e saneamento vai além do acesso à água segura: contribui para a segurança alimentar, a redução de doenças, o fortalecimento da economia local e a valorização da sociobiodiversidade amazônica.

Tecnologias implementadas

Na primeira etapa (de 2015 até 2019) do Programa Cisternas – Água e Saneamento dos Extrativistas na Amazônia foram executadas pela ASPROC no Amazonas, 1.072 tecnologias, em 06 municípios, beneficiando famílias de 07 áreas protegidas. Além dos estados do Amapá e Pará, que receberam 112 e 470 tecnologias, respectivamente.  

Para o próximo ano

Em 2024, a ASPROC renovou sua parceria com o MDS e o Memorial Chico Mendes, reafirmando o compromisso de expandir a transformação social. Até 2026, a associação planeja implementar mais 1.450 tecnologias sociais de acesso à água segura e saneamento básico em comunidades extrativistas da Amazônia, marcando a retomada dos investimentos do Governo Federal em saneamento para populações tradicionais.

A experiência e a liderança da ASPROC mostram que, mesmo em um território desafiador, é possível construir soluções sustentáveis e inclusivas quando as comunidades estão no centro do processo. Mais do que números, o trabalho da associação representa dignidade, saúde e esperança para milhares de famílias que vivem em uma das regiões mais importantes — e vulneráveis — do planeta.