Neste Dia Mundial da Justiça Social (20 de fevereiro), a ASPROC reforça que a verdadeira igualdade na Amazônia começa pela garantia de uma economia justa e solidária para os povos da floresta.
Quando falamos de justiça social no coração da Amazônia, não estamos falando apenas de conceitos abstratos. Estamos falando da garantia de que o suor do trabalhador ribeirinho será recompensado com dignidade, de que sua família terá comida na mesa por um preço justo e de que a floresta continuará em pé graças àqueles que nela habitam.
Por décadas, a realidade das comunidades do Médio Juruá foi marcada por um ciclo de desigualdade. A dependência dos atravessadores (os chamados “regatões” ou “marreteiros”) gerava um endividamento histórico: as famílias compravam mantimentos básicos por preços exorbitantes e eram obrigadas a vender sua produção agroextrativista a valores muito abaixo do mercado.
Foi para romper essa engrenagem de exploração que se estruturou, foi criada a ASPROC e consolidado o Programa Comércio Ribeirinho da Cidadania e Solidário (CRCS).

Idealizado e gerido pela própria base da ASPROC, o CRCS é muito mais do que um sistema logístico. É o jeito próprio dos extrativistas da região do Médio Juruá produzir e comercializar a produção por meio de suas embarcações, polos comerciais estratégicos e uma rede de “cantinas” comunitárias o programa atua em duas frentes fundamentais:
- Abastecimento com Dignidade: O programa leva gêneros alimentícios, itens de higiene, ferramentas e combustíveis até as comunidades mais distantes. Tudo é comercializado a preços justos e transparentes, garantindo a segurança alimentar de centenas de famílias, inclusive durante as severas secas amazônicas.
- Escoamento e Preço Justo: Na outra ponta, o CRCS garante a comercialização da produção local, como o manejo sustentável do pirarucu, a extração de borracha, óleos e sementes, remunerando o produtor com valores justos e condizentes com o mercado.
Para garantir que essa estrutura chegue a quem precisa, o projeto conta atualmente com 11 cantinas já prontas e em pleno funcionamento. Elas estão estrategicamente distribuídas nas comunidades de Vila Ramalho, São Francisco, Santo Antonio, Xibauazinho, Bom Jesus e Bauana, na RDS Uacari; e em Novo Horizonte, Nova Esperança, Roque, São Raimundo e Tabuleiro, na RESEX Médio Juruá. Expandindo ainda mais esse impacto, uma nova unidade será construída na comunidade Toari.

Além da geração de renda, o impacto do CRCS beneficia 2.269 pessoas e cerca de 600 famílias. Esse esforço coletivo eleva a percepção de valor dos nossos produtos e do nosso território. Ao libertar o produtor das amarras financeiras, o comércio solidário devolve a essas populações a sua autonomia.
Um grande exemplo dessa valorização é o arranjo coletivo para comercialização do Pirarucu, que envolve diretamente mais de 230 famílias manejadoras que comercializam produção num valor de 30% acima do praticado no estado. Esse arranjo garante que a história de quem maneja o peixe de forma sustentável seja reconhecida e respeitada até chegar à mesa do consumidor, conectando os dados econômicos às pessoas reais que fazem isso acontecer.

Uma comunidade que consegue viver bem dos recursos naturais, com dignidade e segurança, torna-se a principal guardiã do seu território. A justiça social proporcionada pelo comércio justo é, portanto, a ferramenta mais eficaz para a conservação ambiental no Médio Juruá.
Neste 20 de fevereiro, celebramos as conquistas de cada produtor e produtora que, através da união, provam todos os dias que um modelo econômico justo, solidário e sustentável na Amazônia não só é possível, como já é realidade.


